Engraçado, eu cresci a ouvir gentes de intervenção, gentes que cantavam mais pelas palavras do que pela melodia. Na altura em que todos os meus amigos cantavam o Saturday Night Fever e se abanavam ao som da Olivia Newton John eu berrava, e acreditem que era mesmo berrar, os Vampiros ou a Praia Portuguesa. Dançava apaixonadamente agarrada a uma almofada [não arranjava ninguém que o fizesse comigo...] as músicas do Cohen, ou ansiava ouvir aquelas respostas que iam Blowin' in the Wind.
A minha Mãe é um ser humano bastante especial. O meu Pai também, mas a minha Mãe sempre foi mais expressiva. O meu Pai tem lá as suas ideias e convicções mas desde que não lhe pisem os calos ou não sinta necessidade de vir em defesa ou socorro dos que lhe são queridos, deixa-se ficar lá naquele seu mundo para além das estrelas visíveis e invísiveis.
A minha Mãe nasceu no seio de uma família onde senhoras de luvas brancas serviam à mesa. Onde as crianças eram lavadas e vestidas por uma menina de aldeia trazida para a cidade. Onde as meninas aprendiam a tocar piano e a falar francês. Onde os meninos estudavam o que o Pai mandava e ninguém seguia a sua vocação.
No meio disto tudo, a minha Mãe sempre foi o orgulho do meu Avô José. Foi a única que decidiu onde queria estudar e o que queria fazer da sua vida profissional. Foi a única que ingressou na Unversidade e escolheu uma área que não cabia na cabeça de ninguém, licenciou-se em Ciências Fisíco-Quimicas. Foi para Coimbra estudar um ano porque no Porto ninguém conseguia fazer a cadeira de matemática. Foi boa aluna, excelente aluna. Deu explicações a metade dos meninos que frequentavam o Clube Portuense. Ainda agora tenho na minha cama uma manta xadreza que o filho de uma família sem posses deu à minha Mãe por ela lhe ter dado explicações meses a fio, ajudando-o a passar de ano sem nunca lhe cobrar um tostão. Fez-se Professora Universitária. E, no meio disto tudo, ainda arranjou tempo para ser uma mulher de intervenção.
Percorria os Bairros degradados do Porto, deu de comer, vestiu e ensinou a pegar num lápis a muitas crianças que não conheciam nada para além da Rua Escura. Participava em reuniões refundidas, teve o seu nome nas listas da Pide, foi chamada. E ao ser chamada entrou aqui o outro lado da sua vida, o meu Tio-Bisavô, ex-ministro de Salazar safou-a nem sei bem do quê...
Sozinha pegava no seu Mini Morris e fazia-se 3 vezes por semana à estrada nacional para ir ver o seu irmão ao Hospital Militar em Lisboa que se esvaia em sangue depois de perder uma perna em Angola. Enquanto todas as suas amigas, primas, conhecidas se casavam de branco numa igreja plena de tradições e futuros assegurados, fez-se à vida. Recusou namoros de conveniência, fez valer o seu caminho e nunca se deixou prender por um Pai severo e tradicional, mas que a amava de tal forma e por ela sentia um orgulho tal que o impedia de fazer valer a sua vontade suprema.
Largou tudo, a sua carreira, a sua família para ir, não atrás, mas ao lado do homem que, conhecendo de uma vida inteira, descobriu Amar. Fez-me aqui em Lisboa, aqui em Lisboa, sozinha, quase me perdeu ao expulsar-me de dentro dela. Largou pratas e espelhos dourados, largou criadas, quintas, facilidades, almoços de sopa, peixe, carne doce e fruta para ao lado dele partir para longe, apanhou aviões sozinha, correu em aeroportos atrás de miúdos traquinas, teve vontade de chorar, chorou, amargou, desesperou, amou, lutou. Perdeu o seu Pai estando longe. A meio de uma noite em que o telefone tocou fora-de-horas.
Viveram de uma Bolsa miserável enquanto ele lutava pelo seu sonho de conhecimento, pela sua sede de saber. Fundiram-se duas vezes mais e os meus irmãos nasceram no Porto, longe dele que se afundava em Física Nuclear em Glasgow. Sobreviveram ao 25 de Abril, depois de perderem tudo o que traziam de trás e tudo o que, ainda assim, tinham conseguido juntar. Papeis, casa, dinheiro, mas nunca a dignidade.
Por vezes, vou espreitar as fotografias da sua vida quando já era da vontade dela. Vejo uma mulher linda, sempre de eyeliner bem marcado, cabelo desenhado, vestida de modelos Channel e sapatos de fivela e salto fino - consta que furava as passadeiras dos corredores de casa dos meus Avós. Olho, admiro e parece-me ver uma imagem da Vogue dos anos 50 ou 60. A mulher mais bonita que Deus pôs ao meu alcance. Olho e nem posso acreditar na Mulher de luta que aquele ar vaidoso esconde. Como posso eu ter vindo de dentro dela? Com este meu ar de Homem do Leme, Lobo do Mar, rijo e despenteado, sempre salgado? Sempre espantado!
Nos meus tradicionais almoços e jantares festivos em família, quando vou ao Porto e me sento numa mesa cheia, farta, convencional e animada por uma família que ainda tem em si um lado muito italiano, muito Fellini, são raros os momentos em que não vem à baila o lado comunista da minha Mãe. Foi daí que nos nasceu a ideia, a mim e aos meus irmãos, de que a minha Mãe era filiada no PCPT/MRPP. A verdade é que não é. Mas dá-nos um certo orgulho olhar para ela, aquela flor tão doce e dedicada ao outro, e acreditarmos que é uma mulher da Revolução. Independentemente das suas crenças políticas que, na verdade, são um pouco como as minhas, apartidárias, acreditamos em gente e não em aparelhos, com a diferença de que ela, como
qualquer mulher que passou pela privação do direito à ideia e à palavra, vota sempre e eu nunca.
Isto tudo para vos dizer que, não acredito como possa ter sido possível que, pelo que eu li e ouvi dele nas últimas horas, eu nunca tenha sido apresentada a Patxi Andion. Esta, não lha perdou-o, vou cobrar-lha assim que venha do seu fim-de-semana romântico em Ponte do Lima, ai vou, vou...
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4 comentários:
Se me dedicaste este texto só posso sentir-me um privilegiado.
Porque é uma pequena história da tua vida e da dos teus pais, nomeadamente da tua mãe, contada de uma maneira diferente, como diferente tu és (ou pareces ser).
Gostei muito, mas mesmo muito, do que li.
Pela forma e pelo conteúdo.
E acho que deves dar um puxão de orelhas à tua mãe, sim senhora!
Um beijinho muito especial para ti
Um lindo recordar e um grande elogio à tua mãe. Até a brincadeira final a fará sorrir de orgulho da filha!
Parabéns por teres uma mãe assim e também por seres a filha que de certeza ela sempre gostou ter.
Compreendo perfeitamente a admiração pela mãe que tens. Uma filha vinda dessa mãe só pode ser boa pessoa também. Beijo Maresia.
Que bom sentir o amor...
Que bom sentir o amor dos filhos para os pais..
Bonitas as tuas palavras...
(Obrigada pelo apoio...)*
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