domingo, 26 de fevereiro de 2006

Não fiques aí tão longe...

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade
Que música escutas tão atentamente
Coração do dia

2 comentários:

Alien David Sousa disse...

É preciso saber apreciar. Lindo.

Anónimo disse...

Não conhecia e apreciei bastante (o que não é nada incomum aqui onde a maresia nos beija os pés com a ternura de uma mãe que corta as unhas do seu bebé)