domingo, 2 de fevereiro de 2020

Ruy (o) Belo

E Tudo Era Possível
Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.
Chegava o mês de Maio, em tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída.
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer.
Só sei que tinha o poder de uma criança,
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer...

Canção do Lavrador
Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra
Os versos que faço sou-os
a relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos de voos
que eu tinha à terra ferida

Poema que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a rego simples eu levo
os meus desvairados rumos
Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra
in Obra Poética, vol. 1
Meditação Anciã
Aqui eu fui feliz aqui fui terra

aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

in Toda a Terra
A Mão no Arado
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

in O Problema da Habitação

ADVENTO DO ANJO
Ontem e anteontem já passados
arredondemos os olhos à volta
daquela antiga realidade
alfa ómega primeira e última
que sempre diante na fronte trouxemos
Circundemo-la de um colar de palavras
sem pálpebras pobres pálidas de rosto
roubadas às esquinas eivadas
de arestas agrestes pontiagudas
Percamos palavras como folhas
perdem no Outono as árvores, varridos
pelo contínuo apascentar de cuidados
Já se vão areando as praias de amanhã
desde ontem a morte morreu
E vamos e banhemo-nos no mar
que o anjo forte cúpula do tempo
se sente vir anunciar e fechar

in Todos os Poemas

republicando

e com o Adeus se faz o regresso


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade

republicando

as palavras dadas aos outros


já muitas vezes falei [lá] das palavras que se tornam do outro quando largadas ao vento. há sempre uma história por trás das palavras que contam as histórias que construo de palavras, palavras que são do outro mal as solto. há mesmo histórias que já nem são minhas de todo. acho mesmo que por vezes me esqueço da história das histórias que escrevo. e por isso qualquer história serve a história que é lida. E cada história visitada um dia pode ser uma nova história vivida no imaginário do outro. As palavras já não são minhas, nem as quero. são vossas, vivam-nas, façam delas histórias que vos agradem. a Ursa será sempre a Ursa, mas isso só nós sabemos. o resto.... o resto são histórias em aberto.


quinta-feira, 16 maio 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

and she will die alone

às vezes venho aqui só porque tenho saudades tuas

terça-feira, 9 de julho de 2013

noites de música

domingo, 7 de julho de 2013

se eu pudesse

escrevia um poema
um daqueles que ainda não foram escritos

quarta-feira, 26 de junho de 2013

o sono

um dia, sem que ela o houvesse alguma vez imaginado, perdeu a paz do seu sono e conheceu a angústia dos que não dormem fechados nos seus próprios pesadelos.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Perdi os Meus Fantásticos Castelos

Perdi meus fantásticos castelos
 Como névoa distante que se esfuma...
 Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
 Quebrei as minhas lanças uma a uma!

 Perdi minhas galeras entre os gelos
 Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

 Perdi a minha taça, o meu anel,
 A minha cota de aço, o meu corcel,
 Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

 Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
 Sobre o meu coração pesam montanhas...
 Olho assombrada as minhas mãos vazias...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

e o rio secou

já não tenho lágrimas, só um vazio que rasga, parte e dói. o rio secou.

Adeus

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade

sábado, 8 de junho de 2013

sábado, 1 de junho de 2013

às vezes apetece deixar a vida passar, não ver, não fazer, não acontecer, não sentir, não viver

a dúvida

já não sei se tenho sono se vontade de desistir

quinta-feira, 16 de maio de 2013

As palavras dadas aos outros

já muitas vezes falei aqui das palavras que se tornam do outro quando largadas ao vento. há sempre uma história por trás das palavras que contam as histórias que construo de palavras, palavras que são do outro mal as solto. há mesmo histórias que já nem são minhas de todo. acho mesmo que por vezes me esqueço da história das histórias que escrevo. e por isso qualquer história serve a história que é lida. E cada história visitada um dia pode ser uma nova história vivida no imaginário do outro. As palavras já não são minhas, nem as quero. são vossas, vivam-nas, façam delas histórias que vos agradem. a Ursa será sempre a Ursa, mas isso só nós sabemos. o resto.... o resto são histórias em aberto.

KM 5

200 metros para o lado

terça-feira, 14 de maio de 2013

insónia.desconstrução

o caminho ao contrário
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insónia

parada.dormir requer uma Paz que agora não tenho.levantar cedo.correr caminho.cansada.

segunda-feira, 13 de maio de 2013