terça-feira, 12 de abril de 2005

tu ou não tu, heis a questão

Há dias, li um post ali ao lado, falava sobre as Tias e as Pseudo... na altura nada disse, mas hoje já não pude resistir, chamem-me lá o que quiserem, há pessoas que serão sempre "não-tu" mas nunca "você" (CREDO!!!!)


Confesso que comecei várias vezes a escrever o meu comentário, mas em cada uma chegava à conclusão de que não me iria fazer entender. Achei melhor deixar as coisas como estavam.

Uma vez que existe uma desilusão formalmente escrita sobre a abstinência dos bloguers do Diário, vou tentar.

Desde pequena que, à minha volta, o tratamento na 2ª pessoa do plural (e não na 3ª do singular, como quase sempre é confundido pela horda de - como era mesmo? - novos ricos ou qualquer coisa assim) é um acto inconsciente. Sempre tratei os meus Pais, os meus irmãos, os meus primos mais novos assim. Confesso que alguns amigos também.

Não sei explicar porquê. Duvido que seja por ter uma relação superficial ou menos chegada com qualquer uma dessas pessoas. Não existe Mãe mais confidente que a minha, aposto com quem quiser duvidar! O meu irmão mais novo nasceu no mesmo dia que eu, cinco anos mais tarde. Lembro-me como se fosse hoje. Levaram-me à Lapa (a do Porto, não a da nossa burguesa capital), sentaram-me numa cama no canto e uma senhora parecida com a minha Tia Júlia, colocou um pequeno embruho de pano nos meus braços "S. este é o teu presente de anos!". Eu que já havia escolhido o nome do mano que aí vinha, não coube em mim de contente - aos cinco anos ofereceram-me um boneco que mexia, comia, chorava e até fazia chichi... temos de nos lembrar que estávamos bem longe da geração Nenuco. O meu irmão nasceu como um presente de anos e cresceu para se vir a tornar o homem que não dispenso ter a meu lado. "J., o mano está de ressaca? Está com ar de quem virou 5 ou 6 a mais...", "Agora que está aí, longe, veja lá se lê os meus mails, estou com muitas daquelas minhas dúvidas existenciais, daquelas que nem a Mãe pode ajudar, só o J."

Assim, cinzento no branco, parece uma coisa perfeitamente idiota.

Mas no meio disto tudo, tenho a acrescentar que, a única palavra que nunca me saiu boca-fora foi o "você". Mentira, saiu-me uma vez em pequenita e levei um sermão tamanho que nunca mais me ocorreu usar tal termo. O "você" já faz parte da linguagem burguesa de Lisboa.

Para mim, dizer "MANO PARE!!" é exactamente o mesmo que dizer "PO**A TÁ QUIETO!". Tem tudo a ver com a forma como o diálogo sai - natural ou estudado.

Permitido "A Mãe precisa de ajuda?"
PROIBIDO "Você quer ajuda?"
Permitido "Os Pais vão jantar fora?"
PROIBIDO "Vocês vão jantar fora?"

Nem vou reler. Sei que se o fizer, voltarei a apagar, porque não soa nada como eu queria contar.


ps: Cheguei à conclusão de que irrito muita gente... ainda só não consegui foi conquistar nada... tristeza!

ps2: É engraçado, só depois de submeter o meu comentário, reparei que existia um anterior. Não se trata de falta de respeito, não se trata de maior ou menor confiança, mas, ao contrário da Gigi, mais depressa tratarei alguém aqui da blogosfera por tu do que os meus filhos... Trato a minha Princesa e o meu 'F por menina/o e ainda corro o risco de lhes dar uma reprimenda amigável "TU?!? Eu por acaso ando com a menina na escola?!?" e no entanto são mais do que o sangue poderia ser, não os escolhi, tive a sorte de por eles ser escolhida.

Menina Dos Olhos Tristes

Estava a ouvir este poema, cantado por Zeca Afonso, veio-me à memória algumas das minhas incursões África adentro. Lembrei-me do "dever". Não consigo ser pragmática em relação a certas vivências. Não consigo separar-me da ideia de que, de alguma forma, todos me viram, por dentro e por fora. E alguma coisa me chama, me prende e me leva Mar adentro.

by José Afonso

Menina dos olhos tristes

o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar

quando eu estava para nascer

(José Afonso)
1971

Mulher da Erva

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
(...)

segunda-feira, 11 de abril de 2005

João Paulo II

o erro de João Paulo II foi não perceber que o futuro do catolicismo está nas mulheres, nos crentes do sexo feminino, e ter-lhes fechado as portas do sacerdócio. não que eu, agnóstica, tenha que dar palpites, mas fica a minha opinião
Publicado por Isabel em abril 6, 2005 11:44 PM

Papa João Paulo II, o Peregrino

Na minha opinião, o pontificado de João Paulo II é claramente positivo. Teve mais aspectos positivos que aspectos menos positivos. Antes de fazermos um qualquer balanço, é preciso dizer que não existem pessoas perfeitas, nem feitos perfeitos. Não existem, simplesmente. Por isso, se olharmos apenas para os aspectos menos bons teremos um balanço parcial, assim como se olharmos apenas para os aspectos bons. Um verdadeiro balanço deve incluí-los todos.

João Paulo II foi um peregrino por excelência. Acredito que em todas as viagens que realizou, o seu testemunho, a sua proximidade com o povo de Deus, em todo o mundo, foi, de longe, o ponto mais positivo do seu pontificado, e o que distinguiu dos outros pontificados.

João Paulo II foi também um homem de muita fé, e somos todos testemunhas disso. Sobretudo, pela dedicação e empenho demonstrado nos seus últimos anos de pontificado, onde a sua debilidade física e o seu sofrimento foram sempre bem visíveis.

João Paulo II foi também o Papa das nossas vidas. Eramos ainda crianças quando o João Paulo II foi eleito Papa e não me lembro de nenhum dos seus antecessores. Lembro-me da primeira vez que João Paulo II esteve em Portugal, e tentei ir vê-lo perto de mim. Vi-o passar ao longe. Hoje, confesso, que naquele tempo, não fazia a mínima ideia do que significava o Papa. Era apenas um padre ou um bispo, pensava eu, ou talvez alguém diferente pois andava sempre de branco.

Voltei a ver o Papa na segunda vez que esteve em Portugal, desta vez no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Percorri quilómetros a pé, com a minha Mãe, e nunca o cansaço me foi tão fácil. Nessa altura, tinha a certeza que João Paulo II era alguém especial. Era alguém que conseguia mover milhões de jovens, vindos dos quatro cantos da Terra, num intenso dia de calor ou chuva, no pó, na terra seca ou extremamente inundada.

Em muitas alturas da minha vida senti-me muito longe de Deus. Nessas alturas, nem a fé de João Paulo II, ou o seu testemunho de vida, nem a sua relação com os jovens, me ajudaram a compreender que a vida não tem sentido se não não lhe dermos um sentido.

Por todos estes motivos, não estranho que o funeral de João Paulo II tenha tido a presença das mais diversas pessoas, dos mais diversos quadrantes políticos, económicos, culturais e sociais. João Paulo II foi coerente com a sua fé, com as suas convicções. Foi um exemplo de fé e oração. E isso moveu-nos a todos: cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hindús, agnósticos e até ateus. É, sobretudo, fora da Igreja que João Paulo II gera maiores consenso, se não mesmo, a unanimidade. João Paulo II foi um profeta da Paz. Da Justiça. Do Amor.

Como já disse anteriormente, não há pontificados perfeitos. Por isso, também o pontificado de João Paulo II teve os seus aspectos menos positivos. E estes variam de acordo com quem faz o balanço. Para mim, talvez este ou aquele aspecto poderia ter sido diferente. Para outra pessoa, talvez até esse aspecto tenha sido um aspecto muito positivo.

Posso referir alguns para se compreender melhor:

1. Hoje, a Igreja Católica é mais Romana (centrada no Vaticano) que antes de João Paulo II, e isso afasta-se do Concílio Vaticano II. O próprio cardeal Ratzinger assumiu, recentemente, que houve alturas que a Igreja poderia não ter sido tão centralizada. Como disse alguém, a culpa foi também dos bispos que nas conferências episcopais se demitiram das suas responsabilidades.

2. O seu conservadorismo, sobretudo na moral sexual, afastou milhares (ou talvez milhões) de pessoas da Igreja, e faz com outros tantos não se aproximem da Igreja por essa razão. Aborto e contracepção são coisas distintas e é preciso dizer e compreender isso.

3. A (excessiva) devoção mariana. Não se pode colocar as revelações particulares acima da doutrina da Igreja, ou da própria Sagrada Escritura.

4. «Mais do que falar da Teologia da Libertação, temos de falar da libertação da Teologia», dizia, com razão, um professor de um amigo meu. Não se pode perseguir aqueles que pensam de forma diferente da Igreja, só porque pensam de forma diferente. Não é possível chegarmos ao século XXI, e vermos que os grandes teólogos do século XX foram, praticamente todos, numa situação ou outra, privados da sua liberdade em fazer Teologia.

5. A participação dos leigos, em particular das mulheres, na vida da Igreja. Pela escassez, cada vez maior, de vocações sacerdotais, e não havendo um milagre em breve que inverta a situação, é preciso compreender, de uma vez por todas, que a tão apregoada nova evagelização far-se-á, sobretudo, pelos leigos. Estes precisam de preparação e formação, de assumir verdadeiramente as suas responsabilidades e obrigação de anunciar e sermos testemunhas do Evangelho.

O próximo Papa será diferente de João Paulo II. Não há duas pessoas iguais. Será certamente um bom Papa. Que compreenderá os desafios que se colocam à Igreja e ao mundo nos dias de hoje, e a Igreja saberá dar a melhor resposta. É preciso ter esperança. Não concordo com aqueles que afirmam que a Igreja precisa de um novo Concílio. Teremos esgotado o que assumimos há quatro décadas no Concílio Vaticano II? Voltaremos a ter um novo Concílio apenas para ajudar a por em prática o anterior? Não vejo que seja necessário. Basta relembrar o Vaticano II e, de uma vez por todas, pô-lo em prática.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

boas vindas

a ibl juntou-se ao grupo. juntem-se a mim para lhe dar as boas vindas.

velas enfunadas

ontem à noite cresceu dentro de mim um texto. cresceu, tomou formas, içou pano e largou rumo ao horizonte. deveria tê-lo ancorado aqui, não fora a preguiça me ter colado à cama. agora, sei que era um bom porto de abrigo, mas já não sei o que era. tenho de me lembrar de nunca deixar de ir ao cais antes dos barcos partirem.

psps: afinal também tinha um ps:

tenho duas coisas e uma conclusão:

1ª tenho pânicos, grandes pânicos, enormes pânicos. sofro desse mal da sociedade moderna, os grandes e incontroláveis ataques de pânico. sobretudo quando me vejo encarcerada entre magotes de carros no meio de uma qualquer estrada. sobretudo se essa estrada for chamada de IC e mais ainda numerada de 19.

2ª e depois, tenho 3 pastilhas cor-de-rosa. sempre 3, porque já sei por experiência que uma ou duas não chegam e quatro dão moca. estão sempre em cima do tablier do carro (excepto quando numa curva mais radical me caem aos pés e se perdem entre pipocas, garrafas e rebuçados). e são sempre as mesmas 3. há mais de 10 anos que as mesmas 3 pastilhas me acompanham quando me faço à estrada. sei que, naquele terrível momento em que se me aperta o peito, em que julgo sufocar, prestes a afogar-me em medos loucos, me basta olhar para elas, quase deitar-lhes a mão e... stop! nesse momento termina a agonia.

conclusão: não há nada como a nossa mente para se enganar a si mesma.

ps: quando eu me for, por favor, ao enfiarem-me na grande boca de fogo onde vou ser cremada, não se esqueçam das minhas 3 companheiras.

maternidade II

mas gritaste muito? foi assim, fiquei com raiva. estava a gritar muito porque... estavas zangada? andas uma bocadinho nervosa, ainda te dói o coração? não, o meu braço é que ainda está fraquinho e não tenho força. e o meu mano ouviu e subiu pelas escadas acima para me defender. mas eu nem o vi, porque eu gritava mesmo muito e a S levou-me para a casa-de-banho. queres um bolicao? ela é muito maior do que eu, mas agora ela telefonou ao B, ao irmão dela, que diz que vai bater no R e eu estou mesmo aflita, porque são coisas assim, sabes? qualquer dia eu não sou mais amiga dela, mas agora ainda sou, somos amigas e se ele bater no meu mano por minha causa... preferes chocapic ou nestum de mel? tanto faz. eu estou a juntar dinheiro, o meu mano disse que gostava muito de... como é que aquilo se chama? é no mini-preço, não é no pingo-doce, aquilo! ah, biscoitos? sim, eu já tenho o dinheiro mas não sei quais são. mas ela agora já lhe telefonou a explicar e ele percebeu e amanhã vão falar com o J e explicar também. sabes Princesa, é muito bonito, essa coisa de os irmãos se defenderem, tu levares biscoitos, o R dar-te o bolinho da ceia. estás magrinha, tens de comer. protegerem-se. mas têm de ter cuidado, porque as outras pessoas podem não perceber e pensam que... não, elas sabem. olha lá, ainda não falámos sobre aquilo. no dia em que lá estiveste, achei que não tinhas gostado assim tanto de o ver. achei que estavas um bocadinho murchinha. não. ah. é verdade, toda a gente diz que andas tristinha. não, não ando, eu não tenho nada. mas aquele chi-coração que te pediu, quando vínhamos embora, lembraste? ... parece-me que não tinhas muita vontade de o dar. não é isso, é que... estava a brincar com ele. eu acho que o meu mano tem razão, é melhor quando ele está bêbado. credo Princesa, estar sempre bêbedo não pode ser, isso não é nada bom. mas se ele nunca vai mudar, mais vale assim. olha lá, ele sempre que tem algum dinheiro, vai tudo. ele podia mandar algum, não era preciso vir cá, punha num envelope e mandava para nós. mas gasta tudo na bebida e nos cigarros. ele não vai mudar.

pois não, Princesa, nem ele nem o mundo vão mudar. tiveste de o aprender da forma mais difícil.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Aquecendo a alma

o SOL ali ao lado
(...) “Estes doentes são fotossensíveis. Têm uma atracção pelo sol.”. Fotossensíveis, não dementes.


dementes, não! têm frio! um frio terrível que lhes vem da incapacidade de lidar com este mundo gelado. e todo o SOL é pouco para nos aquecer a alma quando nos gela o sangue nas veias, quando nos sentimos rôxos por dentro, só o SOL o SOL em maiúsculas te pode aquecer um bocadinho. um bocadinho ontem, um bocadinho hoje, outro amanhã... um bocadinho aqui, um bocadinho ali... e em cada bocadinho que o SOL se transforma em mais calor, mais tu foges da sensação de alheamento e te aproximas do sentimento pleno de encontro dentro de ti. só quem sente este frio, pode entender este SOL.
estrela
8:30PM

terça-feira, 5 de abril de 2005

Acorda, Menina Linda

Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer
Anda ver que lindo presente
A aurora trouxe para te prendar
Uma coroa de brilhantes para iluminar
O teu cabelo revolto como o mar

Acorda, menina linda
Anda brincar
Que o Sol está lá fora à espera de te ouvir cantar
Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

Porque terras de sonho andaste
Que Mundo te recebeu
Que monstro te meteu medo
Que anjo te protegeu
Quem foi o menino que o teu coração prendeu ?

Acorda, menina linda
Anda brincar
Que o Sol está lá fora à espera de te ouvir cantar
Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

Anda a ver o gato vadio
À caça do pássaro cantor
Vem respirar o perfume
Das amendoeiras em flor
Salta da cama
Anda viver, meu amor

Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

1975
era tão mais fácil, poder viver sem pensar no fim, talvez apenas pequenas imagens aqui ou ali. soubera eu o dia em que vou morrer e seria tão mais fácil andar por aí vivendo com a certeza de que havia mesmo uma única e grande certeza.

Cantinho

Where are you, Jesus?
You, who have been a sailor
you, who could feel at home
no matter where you are.
If now I´m calling you with my song
that's because I still long
to recognize each and everyone as my brother
and not just as another stranger

Où es tu , Jesus?
Toi, qui es devenu marin
toi, qui étais chez toi
dans n'importe quel coin.
Si maintenant je chante ton nom
c'est parce que je pense tu peux m'aider
à trouver dans chaqu'un un frère
et pas seulement un étranger

Por onde andas tu, Jesus?
Tu, que quiseste ser marinheiro
tu, que estavas em casa
no mundo inteiro.
Se agora te invoco na minha canção
é porque ainda creio que isto tem salvação
ajuda-me a verem cada um um irmão
e não apenas mais um estrangeiro
jpalma dixit 1982

segunda-feira, 4 de abril de 2005

V

J'aime le souvenir de ces époques nues,
Dont le soleil se plaît à dorer les statues.
Alors l'homme et la femme en leur agilité
Jouissaient sans mensonge et sans anxiété,
Et, le ciel amoureux leur caressant l'échine,
Exerçaient la santé de leur noble machine.
Cybèle alors, fertile en produits généreux,
Ne trouvait point ses fils un poids trop onéreux,
Mais, louve au cœur gonflé de tendresses communes,
Abreuvait l'univers à ses tétines brunes.
L'homme élégant, robuste et fort, avait le droit
D'être fier des beautés dont il était le roi,
Fruits purs de tout outrage et vierges de gerçures,
Dont la chair lisse et ferme appelait les morsures !

Le poète aujourd'hui, quand il veut concevoir
Ces natives grandeurs, aux lieux où se font voir
La nudité de l'homme et celle de la femme,
Sent un froid ténébreux envelopper son âme
A l'aspect du tableau plein d'épouvantement
Des monstruosités que voile un vêtement ;
Des visages manqués et plus laids que des masques ;
De tous ces pauvres corps, maigres, ventrus ou flasques,
Que le Dieu de l'utile, implacable et serein,
Enfants, emmaillotta dans ses langes d'airain ;
De ces femmes, hélas ! pâles comme des cierges,
Que ronge et que nourrit la honte, et de ces vierges
Du vice maternel traînant l'hérédité
Et toutes les hideurs de la fécondité !

Nous avons, il est vrai, nations corrompues,
Aux peuples anciens des beautés inconnues :
Des visages rongés par les chancres du cœur,
Et comme qui dirait des beautés de langueur ;
Mais ces inventions de nos muses tardives
N'empêcheront jamais les races maladives
De rendre à la jeunesse un hommage profond,
— A la sainte jeunesse, à l'air simple, au doux front,
A l'œil limpide et clair ainsi qu'une eau courante,
Et qui va répandant sur tout, insouciante
Comme l'azur du ciel, les oiseaux et les fleurs,
Ses parfums, ses chansons et ses douces chaleurs !

Les Fleurs du mal (1857)
Première édition

Charles Baudelaire

e a noite ganhou mais brilho

Era sempre noite, mas brilhavas sempre mais que qualquer lua. Era noite e fizeste de ti estrela do céu. Outrora foras estrela do mar, agora voaste mais longe. Para tão longe que não te posso alcançar. És luz perdida no Universo.

Onde o mar perdeu cor, o céu ganhou luz. Seria egoísmo querer manter-te nas trevas.

sábado, 2 de abril de 2005

amor feito utopia

agora, quem não esperava vir aqui escrever este texto, era eu. como não esperava depois daquele quente voltar a sentir este aperto no peito. dói-me tanto quando escreves. quando escreves dessas certezas tão incertas. na calada da noite parece-me sempre possível a perfeição. é aqui, diante da vida, que percebo que não. e teremos de viver como se fosse. é a única, temos de a fazer maior.
lau
sabes a sol de um dia quente dessa terra de paixões
sonho-te, mais do que te quero
calor de vida sempre esperada
a ti dedico este meu fim de noite
-

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Obrigada Catarina

O Ruizinho vai ter a sua primeira roupa nova. Nada de mais, dirão alguns, a primeira não é diferente da segunda ou da terceira.

Neste caso é.

É porque o Ruizinho tem dois anos e nunca teve uma roupa nova. Comprada para ele. Escolhida para ele. Pensada para ele. É a primeira roupa só dele.

E é especial, porque a Catarina fez questão de querer dar uma roupa nova. Chegavam as roupas de outros meninos. Para quem tem tão pouco... bastaria roupa simplesmente roupa. Mas não, a Catarina é daquelas pessoas que estão despertas para este tipo de gesto. E põe em prática a sua ideia.

Nada melhor para oferecer a quem nada tem, nem roupa, nem pão, nem quase nada, algo de supérfluo, como o é uma roupa nova. Supérfluo comparado com as outras faltas. Uma roupa nova a estrear de barriga vazia. Mas uma roupa nova.

É como aquele mimo, que nos fazemos, nós que temos quase tudo, ou temos pelo menos um pouco mais do que o essencial, a nós mesmas. Uma ida às compras, uma massagem, um verniz vermelho sangue. Uma vaidade ou um carinho.

Também o Ruizinho merece esse mimo. Mais do que ninguém, ele e os outros, merecem esse carinho.

Obrigada, Catarina.

a razão de aqui estar

vamos assumir de uma vez.

esta presença aqui nasceu não da vontade plena de me exprimir, mas sim da necessidade suprema de responder.

há uma enorme diferença.

a primeira vontade é aquela que nasce simplesmente de nós, de qualquer um de nós, de dentro para fora de nós, da vontade de passar para a palavra escrita aqueles que são os nossos pensamentos. de os perpetuar, de os partilhar, de os organizar.

a segunda, nasce-me a mim, sim, a mim, da necessidade de responder a palavras, também elas escritas, mas com as quais me foi, de certa forma, negada a interacção. não porque as minhas palavras não fossem bonitas. não porque as minhas palavras não fossem como as outras. simplesmente porque exprimiam, de uma forma muito forte, aquilo que me despoletava a cadência das outras. a cadência da palavra do outro mexendo na cadência dos meus sentimentos. e esse outro, num súbito assumo de alter-ego, assumia essas palavras como para si e não como para elas. porque elas.

adivinhava nas palavras, nas minhas, uma resposta à sua pessoa. não foi capaz de se libertar, como dizia, das suas palavras e entender as minhas como uma simples reacção às dele.

agora, tenho aqui este cantinho, onde sei que não me vê.

A libertação perigosa na palavra escrita

O perigo (ou o fascínio, para quem não tiver realmente medo de se libertar nas suas palavras) da escrita é esse. Não podemos evitar que o outro se encontre, aqui ou ali, com aquele eu de que tentámos libertarmo-nos, que queremos que se transforme em simples palavras bonitas*. Aliás, se nos libertámos e distanciámos realmente, já não são nossas aquelas palavras, são de todos. Se fossem nossas, estariam guardadas na mais secreta de todas as nossas caixinhas.

Ao distanciarmo-nos nas palavras, prendemo-nos ao papel. Não, pior, quando era ao papel era mais perecível. Agora, neste mundo online, as palavras tomam uma eternidade e uma infinidade própria e consequente ligação a todos os outros que por aqui hão-de passar. A globalidade... para o bem e para o mal.

Não é egocêntrico, aquele que se vai lendo por aí. Que se revê não em nós, mas nas palavras que outrora foram nossas como se para ele tivessem sido escritas. Antes pelo contrário, é de tal forma aberto e generoso, é de tal forma anti-alter-ego, quase altruísta, que é capaz de viver com o facto de que alguém pôs em palavras os seus mais profundos segredos. De não ter medo de não ser único. De não ter medo de, inconscientemente para quem escreveu, ter sido "declarado" ao mundo.

Coisa estranha, a palavra escrita.

* as palavras também podem ser feias, é igual.