O perigo (ou o fascínio, para quem não tiver realmente medo de se libertar nas suas palavras) da escrita é esse. Não podemos evitar que o outro se encontre, aqui ou ali, com aquele eu de que tentámos libertarmo-nos, que queremos que se transforme em simples palavras bonitas*. Aliás, se nos libertámos e distanciámos realmente, já não são nossas aquelas palavras, são de todos. Se fossem nossas, estariam guardadas na mais secreta de todas as nossas caixinhas.
Ao distanciarmo-nos nas palavras, prendemo-nos ao papel. Não, pior, quando era ao papel era mais perecível. Agora, neste mundo online, as palavras tomam uma eternidade e uma infinidade própria e consequente ligação a todos os outros que por aqui hão-de passar. A globalidade... para o bem e para o mal.
Não é egocêntrico, aquele que se vai lendo por aí. Que se revê não em nós, mas nas palavras que outrora foram nossas como se para ele tivessem sido escritas. Antes pelo contrário, é de tal forma aberto e generoso, é de tal forma anti-alter-ego, quase altruísta, que é capaz de viver com o facto de que alguém pôs em palavras os seus mais profundos segredos. De não ter medo de não ser único. De não ter medo de, inconscientemente para quem escreveu, ter sido "declarado" ao mundo.
Coisa estranha, a palavra escrita.
* as palavras também podem ser feias, é igual.
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