Seja de dentro para fora ou de fora para dentro, sempre a fascinou o mundo do outro lado da janela.
1989, Inverno ou Verão, 7:15 na estação de comboios. Sempre ali, via o das 7:18 partir, com calma, com toda a calma. Com muito mais calma do que qualquer outro dos seres que para ali se atiravam. Com calma, como se fosse normal acordar 15 minutos mais cedo todos os dias, para ali estar a vê-los sair. Partiam rumo ao mesmo destino do que ela: sobreviver ao dia-a-dia.
7:20, chegava o que viria a ser o "seu". Derramava na plataforma litros de gentes. Umas diferentes, outras iguais. Umas mais diferentes que as outras mais iguais. A plataforma, que tinha visto correr para lá, despejava agora para cá. Amarelo, verde, azul. Preto, branco ou assim-assim. Altos baixos, correndo ou tentando não ser atropelados. Com a pressa dessas gentes, 7:23 já estaria sentada na sua janela.
Não era importante a carruagem, há quem goste de viajar sempre no mesmo lugar, encontros combinados, saídas mais perto, de tudo um pouco. Ela só queria ficar à janela, fosse qual fosse, desde que virada para a plataforma, e de costas para a frente.
Acho que era nesses pouco mais de 15 minutos, que ela crescia para o mundo, aprendia, absorvia a sua energia, imaginava a sua vida. Sonhava. À noite, quando chegava a casa, derramava no papel tudo o que havia sido derramado nos seus olhos. Suspirava e sentia que podia partir para mais um dia.
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