sábado, 23 de abril de 2005

25 de Abril de 19 e troca o passo...

Tenho dentro de mim uma única recordação desse tempo. Do significado em si, não tenho nenhuma. O meu irmão nasceu 1 mês antes da Revolução. Tinha um mês, a bem dizer, nesse dia! Fomos ao Pão-de-Açucar, ali na Avenida da Boavista, espaço ocupado agora por umas Galerias. A minha mãe levava-o no colo, a minha Tia levava-me pela mão. Estava a chegar a hora da mamada. A minha Tia e eu saímos, a minha Mãe voltou atrás, esquecida de qualquer coisa. Não sei bem em que momento exacto as coisas aconteceram, o que está bem desenhado, a cores e em stereo, na minha memória, são aqueles homens de barba grande, roupa suja, incomodando toda a gente que saia do supermercado. Em frente à porta havia um pátio em cimento, como são todos os passeios no Porto, onde não existe a calçada. As senhoras, que eu me lembre eram só senhoras, corriam, gritavam, eram empurradas. Os que estavam dentro, dentro deveriam permanecer. Os que estavam fora, não sei. A minha Tia dirigiu-se a um desses homens, que gritavam coisas, coisas que agora eu sei eram palavras de ordem, e explicou A minha irmã tem um bebé de um mês ao colo, tem de o ir alimentar, deixem-na sair. Mais empurrão, menos encontrão, acabámos os quatro a subir a Avenida em passo demasiado apressado para mim. Conta-se que éramos fascistas.

1 comentário:

Anónimo disse...

São estes momentos vivenciados que dão à História os seus nexos de causaliade e inteligibilidade. Obrigado pela partilha desse momento de tempos...