sábado, 16 de abril de 2005

os castigos

Os castigos não são (sempre) incompreensíveis. Quando vistos e aplicados de uma forma construtiva, podem ajudar uma criança ou um adolescente a perceberem que somos responsáveis e responsabilizados pelos nossos "crimes" mas, também, que podemos aprender alguma coisa com esse "erro".

Conheço uma pessoa desde sempre sensível às piores realidades deste mundo que conseguia, através de uma participação activa na Associação de Pais de uma Escola onde quase só apareciam crianças de bairros sociais degradados, habituadas à lei da faca e nunca ao carinho e valorização, que 2 ou 3 entre as muitas outras mais, fossem castigadas de uma forma totalmente não punitiva. Vi suficientes pré-deliquentes que teriam sido suspensos das aulas e do espaço escolar durante uma semana ou mais, para ficarem nas ruas sem tino nem destino que não o de criarem vícios e bandos, serem colocados na pequena cozinha a ajudar mas, melhor ainda, nos canteiros da escola, plantando e acompanhando o crescimento saudável de meia dúzia de plantas agrestes. Esse acompanhamento infelizmente era muitas vezes feito, não no decorrer normal de uma manhã de escola, mas sim no decorrer de castigos sucessivos...

Deixei de ter contacto com essas crianças, não sei como cresceram nem no que se tornaram, mas tenho a certeza que, mesmo preferindo andar a sacar carteiras ou furar pneus por aí, nunca esqueceram os dias de ancinho na mão e a magia que é ver alguma coisa crescer do nosso trabalho. Diz-me essa pessoa que, frequentemente, é abordada por jovens que lhe dizem "Lembra-se de mim? Plantei o arbusto do canteiro do fundo".

Talvez isto tudo não passe de uma utopia, mas fico feliz por saber que existem pessoas ainda utópicas.

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